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Vão fazer o teste do pezinho ao sobreiro

Vão fazer o teste do pezinho ao sobreiro

Vão fazer o teste do pezinho ao sobreiro         

(Fonte: Público)

26/08/2009  

Sara Dias Oliveira

Doze projectos estão a postos para "apanhar" o maior número de genes expressos do sobreiro. É a primeira etapa para a criação de um chip de ADN da espécie mais importante para a economia portuguesa. A cortiça nunca foi analisada desta maneira

É uma espécie de teste do pezinho do sobreiro que permitirá reunir informação genética que será condensada num chip. Esta é a explicação mais simples para um plano que está traçado e que promete revolucionar o conhecimento em torno da árvore com maior relevância económica para Portugal.

A partir do próximo mês, o sobreiro, uma das espécies florestais dominantes no país, vai ser remexido de alto a baixo para que a comunidade científica possa reunir o máximo de informação possível sobre a actividade dos genes do sobreiro, para saber como se comporta em certas condições, prever doenças, perceber a síndrome da morte súbita e eventualmente acelerar o seu crescimento. Nada será como antes nesta actividade económica em que Portugal é líder mundial.

Não há dúvida de que a qualidade da cortiça será melhor, mas não para já. "Neste momento, ninguém sabe exactamente o que é a cortiça. Têm sido feitos muitos estudos químicos, sabe-se a sua composição, mas ainda não se sabe bem como é a estrutura, como as coisas estão ligadas", explica o engenheiro agrónomo Cândido Pinto Ricardo, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa e um dos responsáveis pelo projecto que conduzirá ao chip de ADN do sobreiro. "Não se sabe se há uma base genética forte na qualidade da cortiça ou se há uma grande influência ambiental. Desconhece-se tudo sobre a cortiça." Depois de se conhecerem os mecanismos, o crescimento e a produção da cortiça, nascerá uma base para actuar sobre a espécie.

O chip do ADN

No ITQB há vasos com plantas que aguardam as experiências delineadas. A primeira etapa está definida. As atenções concentram-se nos EST (Expressed Sequence Tags), sequências de genes expressos (ou activados) da maior diversidade possível de tecidos do sobreiro. Estados de desenvolvimento, mudanças provocadas por alterações ambientais, físicas e biológicas e o comportamento relativo ao stress serão passados a pente fino. Doze projectos foram aprovados e várias instituições portuguesas - o ITQB, a Universidade do Minho, o Instituto Gulbenkian de Ciência, o Instituto Superior de Agronomia, entre outras - estão preparadas para arregaçar as mangas durante nove meses.

"Queremos estabelecer as condições experimentais, desde recolher folhas de diferentes idades ou o fruto em vários estados de desenvolvimento, ou experiências no laboratório", diz Pinto Ricardo. "Temos de recolher esse material para tentar apanhar o maior número possível de genes que estão a ser expressos. Todas as células têm o mesmo genoma, mas aquilo que estão a expressar em determinado momento é totalmente diferente de umas células para as outras."

Uma das vantagens mais evidentes é não ter de esperar todo o tempo de vida de um sobreiro para conhecer como reage a determinadas condições. "Não é possível fazer um melhoramento clássico no sobreiro se estivermos à espera da sua descendência, ver o que ela é, o que vale. Essas experiências têm de ser feitas de 20 em 20 anos, o que impediu que se fizesse o melhoramento do sobreiro. Se conhecermos os seus genes, a sua sensibilidade a doenças, entre outros aspectos, é um ponto de partida que não vai dar respostas imediatas", esclarece Pinto Ricardo.

A criação do chip de ADN do sobreiro é a etapa que se segue e que terá de passar por uma candidatura. Tudo será diferente depois de aí chegar. "Vamos pôr numa coisinha parecida com uma lâmina de microscópio, sondas de todos os genes que se conseguirem do nosso trabalho dos EST." Informações importantes: "Se fizermos uma extracção de um tecido de um sobreiro que está doente e virmos quais os genes que se estão a expressar em consequência da doença, por comparação com um sobreiro são, e se pegarmos num líquido onde estão esses resultados da expressão genética e os incubarmos com essa placa, vão ficar agarrados determinados componentes". E o que acontece? "Se compararmos tecido são e tecido doente, podemos começar a perceber o mecanismo e a poder actuar sobre ele." O que até agora nunca foi possível. "Ninguém sabe exactamente o que vai acontecer no caso particular do síndrome da morte súbita do sobreiro. Já foram postas várias hipóteses e ninguém tem certezas - com o chip podemos começar a ter respostas sobre essa questão."

Margarida Oliveira, bióloga do ITQB, destaca a importância do projecto que ajudou a delinear e que agora tem entre mãos. "Vai permitir olhar para a parte do genoma que está a ser expressa", activada. A montagem dos dados será crucial. "Doze equipas vão tentar cobrir diversas situações e com essa informação poderemos estudar casos específicos. Para começar a estabelecer ligações entre a informação genética e o comportamento da planta", sublinha.

As experiências ajudarão a "prever o comportamento das plantas e a melhorar a sua performance". Há uma vantagem que já está a acontecer, garante: unir grupos de trabalho e aumentar a quantidade de investigadores que se dedicam ao sobreiro.

José Matos, do Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI), uma das entidades envolvidas, evidencia esse ponto. "Pela primeira vez, há um grande projecto nacional que congrega diversas instituições a trabalhar para o bem comum." Poupam-se recursos, encurta-se o tempo. "Este é o caminho", assegura o investigador. "Se quisermos comparar, podemos dizer que teremos um teste do pezinho para o sobreiro."

A indústria

Em nenhum lugar do mundo está a ser feito um estudo com esta profundidade à volta do sobreiro, embora a comunidade científica internacional se debruce sobre a matéria, dizem os investigadores portugueses. "Com esta amplitude nunca se fez este trabalho, e a sequenciação do genoma muito menos. Achamos que Portugal, como líder na cortiça, deveria ter qualquer coisa a dizer sobre o sobreiro, uma espécie tão importante. Porque, evidentemente, não vamos ter hipótese de marcar posição em mais nenhuma outra espécie", defende Pinto Ricardo.

O projecto foi delineado por quatro cientistas portugueses - Pinto Ricardo, Margarida Oliveira, José Feijó e Serafim Tavares -, baptizado como Programa Nacional de Genómica Funcional de Plantas (PlantGene) e entregue à Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) no final de 2007. A luz verde foi dada em Março deste ano, com 600 mil euros no total (50 mil para cada projecto).

Lígia Amâncio, vice-presidente da FCT, garante que o PlantGene se enquadra perfeitamente no principal objectivo da fundação, apoiar as investigações nacionais. A responsável congratula-se "com a intervenção da comunidade científica" nesta área, um território que Portugal lidera economicamente. "Reconhecemos o interesse estratégico em qualquer circunstância", admite.

Três plantas de relevância económica para Portugal estiveram em cima da mesa na elaboração do PlantGene: videira, eucalipto e sobreiro. Ganhou o último, porque foi impossível contornar a realidade. Segundo dados recentes da Associação Portuguesa de Cortiça (APCor), a área de povoamento florestal onde o sobreiro é a espécie única ou dominante totaliza mais de 730 mil hectares, 33 por cento de toda a área mundial.

Portugal é líder mundial num único produto natural renovável, a cortiça, que contribui com 2,7 por cento das exportações portuguesas - que representam 900 milhões de euros por ano nos cofres nacionais - e significa três por cento do produto interno bruto (também dados da APCor). O país produz 54 por cento de toda a cortiça mundial e transforma cerca de 74 por cento desse produto. Noventa por cento da produção é exportada, dividida em duas grandes fatias: 68 por cento em rolhas, 15 em produtos para a construção civil.

"A investigação na fileira da cortiça é sempre meritória. Investigar significa conhecer melhor um produto ou uma fonte de matéria-prima e é, sem dúvida, a investigação que está sempre na base do crescimento de um sector e na abertura de 'novas portas' para uma indústria que se quer sempre em movimento", diz António Rios Amorim, presidente da APCor e presidente do maior grupo corticeiro do mundo, a Corticeira Amorim, instalada em Santa Maria da Feira.

"Se este método permitir mais um passo na qualidade, estamos perante mais um avanço do sector. E para Portugal, como principal produtor e exportador de cortiça, este passo significa que estamos mais uma vez na dianteira daquilo que se faz na fileira da cortiça a nível internacional."

Joaquim Lima, director-geral da APCor, concorda: "Portugal, com a responsabilidade que tem no sector da cortiça, não pode esquecer a dimensão da investigação e do conhecimento. A liderança também se faz por esse caminho". O responsável aplaude, portanto, a iniciativa da comunidade científica portuguesa. "É fundamental conhecer a espécie para melhor saber actuar sobre ela."